segunda-feira, 11 de julho de 2011

Farol na escuridão




Com o choque do carro, o muro havia se transformado!!! Se partido! Já não tinha sentido! Pelo menos aquele sentido que eu lhe dava! Vi os lábios do outdoor me falarem ainda uma vez...e depois sem dó nem piedade os deletei!!! Quisera deletá-los de minha memória assim como deletava do muro, da tela do computador e do coração...

Um dia, eles, os lábios, me disseram que me “queriam sempre bem”, mas aquilo já não me tocava... E eu sequer podia acreditar, que de fato fosse verdade. Que de fato sonhara humanamente com eles...

Tudo havia de repente sido preenchido pelos olhos, farol de milha, de uma motor V8 com 5300cc, iluminando meu corpo e minha alma... Só que além de ver os olhos, eu via também o raio da fadinha libélula ninfeta, com olhos furta cor... toda prateada e lânguida bailando, flutuando alegremente ao meu redor, enquanto eu tentava me desvencilhar da mão que segurava a minha fortemente... Fechei os meus olhos...tentei mover as pernas, reagir da inércia e de todo medo. Mas a mão, a mão não me largava! Eu estava em coma, só podia, pois se estivesse na minha mais perfeita condição já teria saído dali correndo!

O mais angustiante é que tinha a capacidade de ler pensamentos e ouvir coisas... Enxergar os minuciosos detalhes daquilo que as pessoas faziam e jamais teriam coragem de me revelar...

Ouvia nitidamente o bate papo da “ninfeta prateada” com aquele que apertava a minha mão. Via seus olhares de esguelha, lábios insinuantes, faces ruborizadas... E a mão me apertando cada vez com mais intensidade... eu podia ler os pensamentos deles, e possivelmente, mais nítido do que eles próprios.

O muro e o carro já não existiam... pelo menos não da forma que os conhecera. E os lábios também não...

Os olhos, estavam ali vidrados em mim, e pareciam me comer, me engolir, me tragar até os confins de mim mesma...mesmo de olhos fechados, eu via aqueles olhos fitos em mim...

Que olhos!!! Eu mergulharia nua neles sem titubear, se não estivesse ali imóvel.

Tive medo, muito medo, e foram os olhos que me disseram para não temer.

Bálsamo, em meio aquele caos...

Eles, os olhos, não sabiam, mas eram a segurança em que eu estava ancorada. Sem carro eu estava desprotegida, guerreira nua, sem sua armadura real de todos os dias... E sem os lábios do outdoor não tinha onde apoiar minhas ilusões...

Não queria, que os olhos fossem ilusões também, não queria decepcioná-los, e não queria jamais me decepcionar com eles...queria desaguar neles meu coração, gota a gota, e intensamente ...sabia que a mão não me largaria assim tão facilmente! Sabia que uma hora ou outra eu poria tudo a perder, e era por isto que fugia dos olhos...Olhando –os apenas quando eu estava de olhos fechados...

A sensação de encarar alguém, quando temos os olhos fechados é que, ainda que não queiramos, ou não saibamos, o fazemos com toda a nossa alma... E assim foi...Quanto mais eu fugia dos olhos, mais mergulhava de alma inteira no desejo de tê-los mais e mais perto...

Diante da imobilidade, sem querer, este passou a ser o meu hobby: Olhar para os olhos!

Me perguntava:

“Por que sempre tinha vontade de vê-los?”

Diante desta reflexão, foi que num dia de céu azul, percebi que as minhas pernas voltavam a se mover, percebi que meu coração batia... E que, o céu daqueles olhos, ainda que impalpável, era o melhor lugar do mundo. Neste dia percebi que a mão já não me segurava tão forte, e que se eu fosse astuta poderia me desvencilhar dela! Percebi também que, alguém me chamava no canto da tela... Um outdoor sim, mas não com lábios, e sim com olhos...

Eu tinha me acostumado com a solidão, e com o silêncio da bolha e já nem lembrava que meu celular poderia tocar, que eu podia receber mensagens, que existia o bate papo... Decidi aceitar a conversa virtual com o dono do par de olhos mais estonteantes que havia topado na vida... Mas fiquei muda ao me deparar com aqueles faróis de milha que tinham a capacidade de iluminar e enxergar até os recônditos mais esquivos de minha alma...

Eles me seduziam ... eu não tinha dúvida.

Em meio a este súbito encantamento, me transformei!

Foi como se desse um salto, e voltei a me amar...

Inicialmente os olhos me falavam em frases curtas, que a medida do tempo foram crescendo e crescendo até tomarem conta de toda a tela do meu computador , e depois da tela do computador estavam nas paredes, e em todos os lugares que eu andava...e me seguiam como paparazzi, como câmeras ...me encantavam e me assustavam...

Muitas coisas em mim precisavam morrer para que eu renascesse... Nova e bela!! Diante daquele medo, daquela inércia de toda insegurança eu só conseguia pensar numa coisa: nos olhos... Esqueci tudo! Já nem lembrava mais daquele safári de seres fantásticos e perturbadores quando resolvi mergulhar na poesia que os olhos me ofereciam...

É claro que resisti de início...mas depois eles me ganharam com seu olhar fotográfico...com suas palavras doces...minha alma não conseguia resistir...passei a me derreter por ele...de tal forma que os lábios do outdoor tornaram-se desnecessários ao consumismo poético de minha essência ...e depois dos olhos vi seu rosto, pernas...panturrilhas, lindas diga-se de passagem, instinto canibal de mordê-las...

Fiquei viciada no olhar, era um olhar que se multiplicava e onde quer que eu fosse, sentia aquela presença, como se infinitas câmeras me seguissem o tempo todo e o olhar dele se multiplicasse ganhando as mais variadas nuances... Eu passei a amar enlouquecidamente aquela criatura...

O homem do olhar...

Agora eu era nau perdida e seus olhos cor do céu,

farol a me guiar na escuridão...

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Este post está intimamente ligado aos seis

anteriores ...

são fragmentos de um mesmo devaneio

abaixo os links

das postagem anteriores


1-http://www.luciahbrasil.blogspot.com/2011/03/perai.html

2- http://luciahbrasil.blogspot.com/2011/03/atualizacao.html

3- http://luciahbrasil.blogspot.com/2011/04/bolsa-de-mao.html

4-
http://luciahbrasil.blogspot.com/2011/05/grito-suspenso-no-ar.html-

5-http://luciahbrasil.blogspot.com/2011/06/bolhas-de-sabao.html

6-http://luciahbrasil.blogspot.com/2011/06/infinitos-pontos.html

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Fique a vontade para lê-los na ordem que quiser...

e para relembrá-los ou esquecê-los...





2 comentários:

Mario Jose de Oliveira Teixeira (OLIVO) disse...

Gostei do texto/conto?
p.s.:Dando uma vista de olhos ao lado, reparei que Paulo Autran tinha morrido em 2007. Não sabia! Grande actor!

Lucy disse...

Olá Mário, Obrigada pela sua visita e pelo seu comentário! Quanto ao texto, não sei ainda como defini-lo...Se é um conto...Por isto digo que é o fragmento de um devaneio, que tem vários posts antes e certamente ainda continuará!
Quanto ao Paulo Autran...eu também não consigo ainda crer que ele faleceu! Grande ator, e amigo mui querido. Faz falta para o teatro!
Espero contar com sua visita outras vezes! Grande abraço!