segunda-feira, 11 de julho de 2011

Farol na escuridão




Com o choque do carro, o muro havia se transformado!!! Se partido! Já não tinha sentido! Pelo menos aquele sentido que eu lhe dava! Vi os lábios do outdoor me falarem ainda uma vez...e depois sem dó nem piedade os deletei!!! Quisera deletá-los de minha memória assim como deletava do muro, da tela do computador e do coração...

Um dia, eles, os lábios, me disseram que me “queriam sempre bem”, mas aquilo já não me tocava... E eu sequer podia acreditar, que de fato fosse verdade. Que de fato sonhara humanamente com eles...

Tudo havia de repente sido preenchido pelos olhos, farol de milha, de uma motor V8 com 5300cc, iluminando meu corpo e minha alma... Só que além de ver os olhos, eu via também o raio da fadinha libélula ninfeta, com olhos furta cor... toda prateada e lânguida bailando, flutuando alegremente ao meu redor, enquanto eu tentava me desvencilhar da mão que segurava a minha fortemente... Fechei os meus olhos...tentei mover as pernas, reagir da inércia e de todo medo. Mas a mão, a mão não me largava! Eu estava em coma, só podia, pois se estivesse na minha mais perfeita condição já teria saído dali correndo!

O mais angustiante é que tinha a capacidade de ler pensamentos e ouvir coisas... Enxergar os minuciosos detalhes daquilo que as pessoas faziam e jamais teriam coragem de me revelar...

Ouvia nitidamente o bate papo da “ninfeta prateada” com aquele que apertava a minha mão. Via seus olhares de esguelha, lábios insinuantes, faces ruborizadas... E a mão me apertando cada vez com mais intensidade... eu podia ler os pensamentos deles, e possivelmente, mais nítido do que eles próprios.

O muro e o carro já não existiam... pelo menos não da forma que os conhecera. E os lábios também não...

Os olhos, estavam ali vidrados em mim, e pareciam me comer, me engolir, me tragar até os confins de mim mesma...mesmo de olhos fechados, eu via aqueles olhos fitos em mim...

Que olhos!!! Eu mergulharia nua neles sem titubear, se não estivesse ali imóvel.

Tive medo, muito medo, e foram os olhos que me disseram para não temer.

Bálsamo, em meio aquele caos...

Eles, os olhos, não sabiam, mas eram a segurança em que eu estava ancorada. Sem carro eu estava desprotegida, guerreira nua, sem sua armadura real de todos os dias... E sem os lábios do outdoor não tinha onde apoiar minhas ilusões...

Não queria, que os olhos fossem ilusões também, não queria decepcioná-los, e não queria jamais me decepcionar com eles...queria desaguar neles meu coração, gota a gota, e intensamente ...sabia que a mão não me largaria assim tão facilmente! Sabia que uma hora ou outra eu poria tudo a perder, e era por isto que fugia dos olhos...Olhando –os apenas quando eu estava de olhos fechados...

A sensação de encarar alguém, quando temos os olhos fechados é que, ainda que não queiramos, ou não saibamos, o fazemos com toda a nossa alma... E assim foi...Quanto mais eu fugia dos olhos, mais mergulhava de alma inteira no desejo de tê-los mais e mais perto...

Diante da imobilidade, sem querer, este passou a ser o meu hobby: Olhar para os olhos!

Me perguntava:

“Por que sempre tinha vontade de vê-los?”

Diante desta reflexão, foi que num dia de céu azul, percebi que as minhas pernas voltavam a se mover, percebi que meu coração batia... E que, o céu daqueles olhos, ainda que impalpável, era o melhor lugar do mundo. Neste dia percebi que a mão já não me segurava tão forte, e que se eu fosse astuta poderia me desvencilhar dela! Percebi também que, alguém me chamava no canto da tela... Um outdoor sim, mas não com lábios, e sim com olhos...

Eu tinha me acostumado com a solidão, e com o silêncio da bolha e já nem lembrava que meu celular poderia tocar, que eu podia receber mensagens, que existia o bate papo... Decidi aceitar a conversa virtual com o dono do par de olhos mais estonteantes que havia topado na vida... Mas fiquei muda ao me deparar com aqueles faróis de milha que tinham a capacidade de iluminar e enxergar até os recônditos mais esquivos de minha alma...

Eles me seduziam ... eu não tinha dúvida.

Em meio a este súbito encantamento, me transformei!

Foi como se desse um salto, e voltei a me amar...

Inicialmente os olhos me falavam em frases curtas, que a medida do tempo foram crescendo e crescendo até tomarem conta de toda a tela do meu computador , e depois da tela do computador estavam nas paredes, e em todos os lugares que eu andava...e me seguiam como paparazzi, como câmeras ...me encantavam e me assustavam...

Muitas coisas em mim precisavam morrer para que eu renascesse... Nova e bela!! Diante daquele medo, daquela inércia de toda insegurança eu só conseguia pensar numa coisa: nos olhos... Esqueci tudo! Já nem lembrava mais daquele safári de seres fantásticos e perturbadores quando resolvi mergulhar na poesia que os olhos me ofereciam...

É claro que resisti de início...mas depois eles me ganharam com seu olhar fotográfico...com suas palavras doces...minha alma não conseguia resistir...passei a me derreter por ele...de tal forma que os lábios do outdoor tornaram-se desnecessários ao consumismo poético de minha essência ...e depois dos olhos vi seu rosto, pernas...panturrilhas, lindas diga-se de passagem, instinto canibal de mordê-las...

Fiquei viciada no olhar, era um olhar que se multiplicava e onde quer que eu fosse, sentia aquela presença, como se infinitas câmeras me seguissem o tempo todo e o olhar dele se multiplicasse ganhando as mais variadas nuances... Eu passei a amar enlouquecidamente aquela criatura...

O homem do olhar...

Agora eu era nau perdida e seus olhos cor do céu,

farol a me guiar na escuridão...

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Fique a vontade para lê-los na ordem que quiser...

e para relembrá-los ou esquecê-los...





terça-feira, 28 de junho de 2011

Infinitos pontos


Nos dias que se sucederam resisti à vida dentro daquela bolha. Tive que buscar formas para me acomodar. Buscava um ponto de equilíbrio, mas não encontrava... Ali, na calmaria da bolha flutuante, em meio ao silêncio e a bela paisagem fui deixando o desequilíbrio me consumir. E cada dia eu consumia menos, menos comida, menos água, menos ar, menos vida, menos amor. Não podia ouvir vozes nem ruídos, a bolha vibrava numa freqüência que até então desconhecia, como numa lógica descompassada de mim mesma. Decibéis atordoados, como fios num curto circuito. Quebrei algumas coisas nestes dias, na tentativa de reagir ao massacre que o vazio da bolha me impunha. O pouco que ficara ao alcance das minhas mãos utilizei para ver se rompia as paredes, aparentemente tênues, da bolha. Queria a todo custo retomar a queda livre e reencontrar o muro, o abraço, o paredão, o outdoor, os olhos ou os lábios...já nem sabia mais... Eu não sabia o queria...Mais queria, e queria muito...

Decidi não resistir a acomodação que a vida dentro da bolha me induzia, não para sempre, apenas momentaneamente... Eu precisava controlar minhas emoções. Retomar além de minha memória, minha racionalidade. E com elas duas descobrir se os lábios, e os olhos cor do céu, e se ele, e eu éramos algo, se tínhamos algo...se tivéramos algo, se teríamos algo... Uma história talvez... Ah! Que tipo de história era esta?

Eu não queria ser só uma louca alucinada, eu queria um desfecho poético...

A boca já não me dizia mais nada! Volta e meia falava de loucuras e de loucos... mas dizer mesmo, não dizia nada...Os olhos tentavam me ler, mergulhar até a minha alma, como se nela houvesse algo para ser resgatado...Como se dentro do infinito buraco negro que eu era houvesse um resquício de poesia...

Pensei que com a bolha a deriva, poderia ser levada para algum lugar...E por dias a fio enxerguei o jardim de delícias que os olhos me inspiravam, e pela primeira vez na vida me senti a inspiração no lugar da inspirada... Mas viver numa bolha exigia muito mas tato do que eu pensava...

Eu teria que agir calada, quieta, com a irritante tranqüilidade daquela bolha submersa no nada.

Eu não tinha como escrever, também não tinha sinal no celular, que a essas alturas já estava tão descarregado quanto eu...

Tracei pontos dentro da bolha. Parece estranho entender isto para quem nunca esteve dentro de uma bolha... Mas... lá... há, um sem fim de pontos e coordenadas, que servem como uma rosa dos ventos para se entender a direção que a bolha vai.

De início fiz de mim o eixo, dois pontos.

A base, ficava na altura de meus pés se eu estivesse em pé, ou no cocxix se eu estivesse sentada.

O outro era acima da cabeça.

Na base coloquei a certeza, o frison... o trabalho... as coisas que eu tinha, e as que devia trilhar para alcançar.

Acima da cabeça, naquele momento, estava o que eu mais queria esclarecer: os lábios que um dia me falaram e os olhos que me observavam...Ambos eram a mesma criatura? Ou eu que unia com um laço invisível os pedaços de meus sonhos?

Na ansiedade pus tudo a perder... queria saber da reciprocidade, e falar de alma, mas por hábito acabei falando das emoções físicas...das loucuras que eu tanto buscava me libertar... Será que ainda havia algum resquício além do “querer sempre bem”...

Ao esclarecer estes dois pontos, os repassei milhares de vezes, e ao tê-los assim claros, e bem desenhados diante de meu olhar, com todas as especificações possíveis e plausíveis bem delineadas, percebi que a ebulição de sentimentos e o borbulhar de emoções cessava...A bolha foi calmamente pousando e ao tocar em minha escrivaninha, ficou tão, mas tão transparente que se dissolveu...

Pus o celular a carregar, e liguei o computador.Precisava me comunicar, e não podia mais ser precipitada, falar besteiras de maneira imprudente.

Decidi não me comunicar...

Off line.

Me detive.

Ser off line era seguir na bolha...

Ao ligar o computador a pequena janela, com a publicidade, que imitava os lábios do outdoor não apareceu. Temi que sua suposta irmãzinha vestida de branca de neve viesse correndo em minha direção com seu ferrão de abelha e com os sete anões de meus pecados capitais tentar-me com a proposta de ser apenas a safada da história no lugar de ser simplesmente autêntica. Optei por não escrever frases ou mensagens longas... Uma única frase no lugar destinado ao assunto da mensagem serviria de gérmen para iniciar o processo semeadura que culminaria na colheita de meu esclarecimento... Nada consegui escrever... Eu queria falar aos lábios muita coisa mas não falei! E depois ao olhos cor de céu...

Paciência, muita paciência... Passos suaves, leves ... Eu não podia despertar novamente o meu monstro, pelo menos agora. Antes eu tinha que entender se havia uma história antiga, infantil, de ficção, suspense, romance, cômica... Desvendar seus personagens, me encontrar nela, para me reencontrar em mim... Com cautela... já que eu não tinha dimensão do tamanho da história, ou de meu personagem neste enredo, que eu ainda não sabia se existia.

Eu estava mais leve, e embora quisesse flutuar, algumas certezas iam em mim: se houvesse uma história da qual eu de fato fazia parte, nela eu não queria atuar como figurante ou apenas melhor amiga...Não queria ser a mocinha, não queria ser a megera...Queria ser a heroína...E não queria de jeito nenhum voltar para a bolha.

Agora era hora de agir...

Me perguntei: para que galáxia eu estava indo?

A chuva parou, o sol dava sinal no horizonte... Que horas seriam? Manhã ou entardecer?

Na confusão me esqueci de atualizar o relógio do computador...

Era manhã, o sol nascia deixando tudo rosa... Meus olhos me avisaram que estava na hora de dormir...

Dentro da bolha o fuso horário era outro, o tempo era contado de outra maneira e horas e minutos não tinham a mesma dimensão do mundo real, cotidiano ou cosmopolita. Ao despertar iniciaria uma nova vida... Eu só queria esquecer a bolha, esquecer de mim, do mundo... Adormecer...

E ao surgir o primeiro raio de sol, o céu ficou vermelho e eu adormeci ...

Meus sonhos se confundiam com o de outros...beijos...e coisas quase sem sentido...e personagens e mais personagens...Meu menino, sim havia um menino, uma criança talvez, em minha vida e ela estava pequena muito pequena, e eu chorava diante da noite fria e estrelada...por ele...Pois em meu coração algo estava apertado...e no céu já não via os olhos azuis, a boca sussurrante...e nem conseguia me atrever a sonhar com ambos...via meu carro em choque ...eu no banco do carona, eu com as mãos no volante ...e depois a manhã dourada e a ilha que eu já não amava brilhando diante de seu espelho de nome mar...E eu do lado de fora...meu carro se chocava contra o muro branco que tantas vezes me confortara...

Chamei os lábios do outdoor...Um sem fim de personagens humanos e atrozes surgiam no meu jardim... Uma fada loirinha com olhos prateados de cobra... Gnomos e bruxas, gente comum, gente importante... e todos de cara maquiada... Queriam que eu me maquiasse também... E os lábios a me falar de beijos...e eu anestesiada pelo choque...e os olhos perdidos em giro me procurando, querendo saber onde eu estava...e a fadinha tentando a todos com suas fotos de ninfeta virgem e imaculada...e a abelha rainha voando...e também uma índia...Muda, inerte...buscava os olhos...rezava pelo pequeno...empurrava a fada com um sopro para bem longe e todos e eu ... os dois pontos viraram outros tantos : 4, 6, 8, 12, 16...até o infinito de mim mesma...um louco que eu não sabia gritava por meu nome, a voz do telefone gritava com uma voz semelhante a minha pelos lábios de outdoor...alguém segurava minha mão enquanto beijava a fada...e outras tantas fadas...e eu ? Buscava na névoa daquele dia que havia começado cor de rosa...saber o que havia em que ponto...buscava que liam minha alma...mas eles não me encontravam e naquela confusão me choquei com alguém além do muro, além da mão, além do menino, além da fada, além dos sonhos indecentes e descompassados...e tentei dormir...


Por favor, fada sem graça...Atenda pelo menos um de meus pedidos! Quero voltar para a bolha flutuante no céu azul ...


Independente de onde estivesse sempre haveria um ponto ou dois ou mil...para embaralhar a vida nas infinitas bolhas que havia criado! A Fadinha me deu uma poção para tomar...eu senti náuseas...mas quem vomitava era o meu menino...que estava cada vez pior... Era um veneno e não matava! Onde estaria a poesia da bolha que me transportava... Adormeci novamente...ou acordei do sonho! Não sei ao certo... E a única coisa que fazia sentido era sair correndo...fugir! Mas em qual direção? Não eram olhos que me olhavam mas câmeras que me perseguiam em minha imobilidade...Foi quando percebi que minhas pernas estavam imobilizadas... E que nem os olhos nem os lábios tinham a capacidade de me tirar dali...



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domingo, 12 de junho de 2011

Bolhas de Sabão


Sim, muitas bolhas...

A queda parecia me fazer flutuar agora...como bolha de sabão, e no meio de bolhas de sabão...os tombos tem sua poesia, pensava eu durante a queda livre ... foi quando me deu uma lucidez descompassada...

caio de costas ou de cara?

De costas fico paraplégica de cara desdentada...

de braços abertos...sim

assim se alguém decidir me amparar aproveito para um longo abraço...


Estava em queda , mas não caía ...descia por entre as bolhas de sabão coloridas...e achei que aquele mundo ensaboado era infinito quando lá de cima pude avistar o meu quarto... o computador, a cama...

ah a cama...vista assim a distância parecia tão deliciosa...

Eu havia cochilado além da conta... só podia... a espuma de sabão da máquina escorria pelo tanque, pela casa, pelo quarto por tudo...chegava até o descanso de tela do computador... e cada bolha gritava com a voz do outdoor...Eu amava aquela voz do outdoor, na verdade eu era nevralgicamente apaixonada pelos lábios do outdoor, e certamente por seu dono... só agora eu percebia...(acho) sim eu agora estava certa, embora toda certeza de amor é sempre dúvida e toda dúvida de amor sempre venha prenhe de uma certeza...

Amar como se as bolhas de sabão fossem corações que saiam de dentro de mim...e de fora e de tudo e me envolvessem e me fizessem flutuar e delirar...

De quem era aquela voz?

Quem era aquele ser ? ou não era?

Ah bolhas do descanso de tela...

Diante de meu delírio encontrei em uma das bolhas, os lábios...a boca...

Sim eu agora estava lúcida e sabia que eu já beijara aquela boca , senão não teria explicação toda aquela fixação...ainda se fossem lábios carnudos estaria explicado , mas não eram... o desejo, o sabor, estava mais nas palavras que saiam dela, da boca, que de sua forma... pelo menos eu pensava assim naquele momento...

a bolha estourou diante dos meus olhos ...a boca...e pronto...ouvi:

“te quero sempre bem”

E depois daquela bolha todas as outras a seguiram como num coro...

Estourando e dizendo

"Te quero sempre bem..."

"Te quero sempre bem..."

TE

Quero


Se me quer não vai ser longe

Se me quer...quer sempre...

Quer cotidano

Se me quer bem ...

Me quer perto!

será?

Mas poderia me querer sempre bem para eximir-se de minha presença, me querer bem longe isto sim ...

Mas aí não me quereria...

Ah bolhas de imaginação, de queda e de ascensão...

Vou explodir tudo para ver o que pode sair de dentro de cada uma delas...

E a outra bolha disse...

“sei que me queres bem também”

Quero quero quero quero quero quero

sístole diástole sístole diástole sístole diástole

Quando eu ia dizer que o queria como um vício . Que quereria sempre... surgiu uma abelha, a abelhinha...e foi estourando as bolhas uma a uma com seu afiado ferrão...

Estranho é que a abelhinha tinha a cara da irmã dele...mas naquele instante, entre queda e sabão, tive certeza que a abelha, agora prestes a ser rainha, não era irmã, nunca fora...

E assim todas as bolhas sumiram...

Junto com os lábios de outdoor e a abelha!


O descanso de tela da minha realidade havia cessado...


E com ele o meu direito momentâneo a sonhar.

O direito de transformar sonhos em realidade transferidos para data indefinida...

“Agenda lotada!”

A voz falou isto...e simplesmente me esqueceu...

Sim eu ouvi estas palavras sair de dentro de uma das últimas bolhas daquele dia...

Balde de água fria...

Odiava ser esquecida...me insulte mas não me esqueça, não me ignore...este sempre fora meu lema.

Vou escalar de novo... quero ver se na próxima queda encontro tantas bolhas assim para me esbaldar...

Foi quando percebi que eu não enxergava paredão, ou muro algum...

Lá embaixo tudo era verde...

E havia um arbusto, um coqueiro e vez ou outra um passarinho...

Desespero!!! Eu ia cair...

Pensei nos lábios do outdoor pela última vez...e ali no meio da queda tive a certeza que nada era mais prudente que esquecê-los...Mas pensar em que ora?

(se pelo menos surgisse um gigante para me amparar)

Como esquecer, algo que vinha perseguindo meu ser há tempos...

(um anjo, um arcanjo, um ser surreal...)

Lembrei da infância, quando em cima do muro que escalava com meu irmão até o terraço da casa do vizinho. Ele, meu irmão, segurando firmemente minha mão dizia: “Não olha para baixo! Olha para cima!”

E foi o que fiz naquele dia, no momento que as bolhas de sabão cessaram, no meio da queda livre...olhei não para o chão, mas para o céu...

Ah o céu... que delícia era naquele momento de queda...ter um céu inteiro assim só para mim...

E eu naquele instante, a estrela de todo aquele céu!!!

A cor do céu me trouxe a lembrança de dois olhos...

E no meio da queda quando esperava o beijo enviado por um beija flor errante...

Vendo o céu senti que em breve eu veria um passarinho azul...

muito em breve

Ah pássaros azuis...

Ah bolhas

Ah o céu

Agora as bolhas não estavam mais fora, voando suaves na direção da brisa...Nem percebi que diante daquele entusiasmo todo eu acabara presa dentro de uma bolha...

E o primeiro instinto foi o de sair dali...

Gritar

“Ei...me deixa sair...”

"Ei ei...

Me escuta!"

Gritei!

(ao longe ouvia-se um funk...som de carro de namorado alienado estacionado na porta da casa da namorada imbecil ... num daqueles entediantes churrascos de domingo...)

Percebi que os pássaros saíram em revoada...e com o vôo deles lá se foi, pelo menos momentaneamente a oportunidade de ver o pássaro azul, fazer meu pedido...e encontrar o que eu não sei se perdi...


Para onde esta bolha vai me levar???


Clamei por chuva para que pudesse logo por os pés no chão...tarde demais...

eu estava voando céu a fora...e tudo que me vinha em mente era, não mais os lábios de outdoor, mas olhos do tamanho e da cor daquele vasto céu, pela qual eu era transportada, olhos imensos e azuis...E assim enquanto flutuava na bolha de sabão, me senti uma estrela brilhante...e passei dia e noite a sonhar com o dono daqueles olhos...

Sim eu precisava urgente falar com ele...

...mas não sabia para onde a bolha me levaria...


a bolha flutuava

eu lá dentro

e bem longe

batucando infernalmente nas minhas já tontas idéias

a buzina do carro do namorado de não sei quem

e um som

crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew crew


Sim nem flutuando no céu se está em paz e isento das coisas que não tem remédio e nunca terão...


mas e os olhos???

perdiam-se no nevoeiro espesso

diante do crew, buzinas, sonhos,

expectativas indevidas

(como me disse um dia um pintor)

eu já não tinha certeza de sua cor...

quase adormeci flutuando

mas...estava nas alturas...

liguei o piloto automático

para o aguardo da inevitável queda...

se o sistema de áudio da bolha funcionar...

um dia a caixa preta de mim mesma pode vir à tona

e com ela virão não apenas as alucinações de fim de outono

mas bem mais que meus torpes

sonhos impossíveis


ah utopias utopias utopias


ah bolhas de sabão


ah fontes de inspiração


onde eu estaria???

para onde a bolha me levaria???


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TALVEZ CONTINUE

Depende onde a bolha me levar...

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

GRITO SUSPENSO NO AR


Não sei se por medo, ou pelo desejo de ser ouvida. Querendo que a força que havia em mim fizesse meu berro atravessar paredes, romper o tempo e o espaço... e chegar aos ouvidos daqueles lábios de outdoor que para meu desespero haviam calado...

Que movimento em falso eu dera? De que maneira bizarra, grotesca, incompetente eu escorregara para não encontrar a solução?

Não existiam fórmulas suficientes, que alcançassem aqueles ouvidos, e sendo assim os lábios, os outdoors e tudo em volta calou - se, até mesmo a tempestade... Aquela tempestade que eu desencadeara não sei de que maneira, possivelmente com uma gota de água errada...

Pensei no muro branco, não fazia muito, pelo menos para mim que encontrava -me diante dele...do muro!

A noção de mundo girando, e do tempo real das coisas, com suas conseqüências e gostosuras não me era inteligível naquele momento. Era o quase exílio que fazia isto comigo! Ao sermos exilados ou exilarmos sempre perdemos algo: uma festa, uma parte da história, as chaves, as peças da compreensão...

Do que mesmo? Exilada como? Do que era que eu falava?

Eu não sabia.

Amnésia de novo.

Alienação...

Saudades...

Sim eu tinha muitas saudades...

E desejos infundados ...

Tantos que até me perguntaram outro dia se estava grávida...

Não, não estava, e bem possivelmente nunca estaria... Minha prenhêz era provinda de outras fontes, de minha falta de lucidez, do ato incomum de assumir o que não se assume nem diante de Deus : paixão e loucura. Este era o grand pax de Deux que dançava frenético nas minhas entorpecidas idéias .

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Certa vez li um livro incomum onde ia tudo junto e misturado: kamasutra e alma.

Que toda paixão gera uma criança... muitas delas estão por aí habitando as ruas, as praças, as escolas, as platéias de teatro infantil...as barrigas...

Outras apenas aumentam os laços de quem já transcendeu ...

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Sim era de transcendência que eu falava...

... e ao desejar transcender...

...acabei por transgredir ...

E logo depois...

Logo depois do que mesmo?

Ah sim ...depois da transgressão o que é que vem ...

Traansbordar ou escoar?

Escorrer talvez.

.

.

.

Era isto, eu estava escorrendo pelas fendas abertas no chão de terra...

Eu estava erodindo...

O passo seguinte?

Passo?

Era um tango?

Era passo de que?

Era um passo inadiável. E eu havia esquecido...

Lembro dos lábios a me dizerem que não devia adiar mais?

Mas não devia adiar o que?Possivelmente o ritmo das coisas, da vida que como numa dança se impõe... Que variação eu ia dançar mesmo? Ensurdecida perdi o ritmo, perdi a canção ...

E novamente me vi diante do muro...

agora diferente...

diante dele haviam infinitas propagandas destas de telefone celular e de prestadoras de serviço...

quando ia escolher a ideal a propaganda mudava para outra e logo após o telefone tocava...

e mais outra ,

e outra

e assim sucessivamente...

Mensagens e vozes ...

e gente passando ...

uma fila de gente ...

O trem parecia andar de cabeça para baixo...

fumaça

fogo

som de sirenes...

e ao redor eu me vi num labirinto de gente... e não era mais um out door,

mas 20 , 200, 800 a falar e a repetir coisas que eu não queria compreender...

infinitos olhos...e tudo que eu queria naquele momento era um telefonema,

apenas um telefonema um esclarecimento para saber em qual esquina eu tinha que dobrar...

que encruzilhada seguir.

?

Uma curva...

era isto ...

eu tinha que descobrir que curva que eu havia me perdido...

Sem saída percebi que o muro era agora uma parede...

uma gigante parede azul...

E eu havia acabado de tomar um banho...

para refrescar as idéias

depois do incêndio...


incêndio?

do que mesmo?

Foi quando decidi colocar o vestido.

Um garoto de cabelos longos, apareceu e perguntou se eu queria escalar ...


Impossível

pensei...

Eu ?

Escalar?

Me virei de súbito para lhe dizer que eu não tinha capacidade sequer de subir uma escada ...

“Vai ter que tirar o vestido...”

“Como assim? Tirar o vestido?”

“Desculpa... trocar de roupa! Para escalar!”

.

.

.

Lembrei daquela tarde...ou dia ..ou manhã...não sei ao certo.Lembrei que em meio a toda confusão. No exato momento que percebi que o meu telefone não tocaria, que meu plano não ligava, que meu celular era pré pago, que eu estava praticamente incomunicável ... o jornaleiro perguntou se eu estava escalando? E disse que eu tinha cara de escaladora!

'Cara? escaladora?'

"Sempre gostei foi de mergulhar..."

"Você pratica que tipo de mergulho?"

"Mergulhos no nada sei..."

"Como ?"

"Nada!"

disse eu, para finalizar a conversa...

.

.

.

Me perdi por um instante em meus devaneios e lembranças

e o cara seguia ali na minha frente ...

“E aí o que manda? Tango ou escalada?”

“Espera! Eu vou tirar o vestido...”


Percebi que ao dizer isto todos se excitaram ...

Delícia...

Eu precisava disto para o meu ego,

e se tivesse assumido a loucura mesmo escalava de vestido

ou até sem vestido ...

me desnudava ali na frente do paredão que era branco e depois ficou azul neon

luminoso e pedregulhento...


O garoto da escalada já estava desistindo e guardava os equipamentos quando voltei fardada, pronta para subir na vida! Ele pareceu feliz, mas não deixou de relembrar do vestido que eu havia tirado...como se tivesse me espiando. Comecei a escalada e só parei lá no alto quando coloquei a mão na última pedra minha mão escorregou e eu caí...


O telefone,

a voz...

Os lábios do out door que me falavam

e seus olhos...

piscando como se o mundo estivesse num colapso,

cacoete incessante.

Desliguei o telefone...

Fechei os olhos e me deixei cair...

...

Afinal de contas sempre sonhara em voar...

Gritei e a sensação que tenho é que o grito ainda permanece em mim ...

como se seu eco estivesse

suspenso no ar

Chamando por quem meu Deus?

Por quem?


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CONTINUA

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sábado, 30 de abril de 2011

Bolsa de mão






Uma roupa de frio outra de calor, roupa social, roupa de banho e peças íntimas.

Uma fotografia e um cristal, como amuletos e companheiros.

Algum espaço para os sonhos...

Já ia me por em movimento, não mais perdida mas certeira no alvo que eu acreditava certo.

Calcei as botas peguei a bolsa e já estava de saída ...quando começou a soprar um vento ensurdecedor...Uma tempestade batia a minha porta, cinza...

não tive medo...

queria mesmo era enfrentar aquele vento de braços abertos e rodopiar na ventania ...louca, desvairada e feliz.

Quando ouvi a voz do computador, a atualização havia acabado.

Já?

E a voz gritava pedindo notícias:

“me fala tudo”

Como que eu ia dizer tudo.

Eu estou de partida! Era só o que queria dizer...

Estou correndo agora alucinada no meio de uma tempestade multicolor ...Como se dançasse a valsa das flores.

Quebrando os obstáculos em forma de nozes pelo caminho.

Respirei fundo...

Uma pequena luz ao canto do computador piscava incessantemente pedindo que recarregasse a bateria.

Que se esvaia.

Os lábios do outdoor gigante agora apareciam numa pequena janela de minha minúscula tela.

E a voz avisando que as atualizações já haviam sido feitas e que eu devia reiniciar o computador ...

E o vento cada vez mais forte ...

Chuva...cinza.

Poeira quase marrom...

Na estrada o vento levantava uma areia de cor que variava entre o ocre e o vermelho ...

Uma janela começou a bater...

E a outra pequena janela se abriu no canto do computador

Pedindo novamente que eu falasse tudo...

Ai que vontade de dizer tudo...tudo mesmo...

Mas o momento ...

a luz seguia piscando

e o vento

e a janela batendo

antes de fechar a janela que continha a mesma propaganda do outdoor de meus sonhos, devaneios.

Percebi que as palavras não estavam mais em francês

Tudo era muito claro

Um raio clareou o horizonte de mim mesma

E tudo lá fora ...

As palavras que me chamavam agora não vinham apenas dos lábios do outdoor minimizado.

Vinham do canto da tela

Eram virtualmente reais?

Eram de quem eu pensava?

“Fala tudo.

Assume a loucura...”

Era isto que eu queria ouvir.

Mas enquanto a voz que me dizia isto,

outra falava de atualizações .

fala também ...

Não assumia sua loucura e seus sentimentos também...

Espaço apenas para desejos...

Trovão

Escuridão

Meus dedos ainda buscaram o teclado

Para que eu sem medo pudesse assumir a loucura

Que havia em mim

Abrir a caixa de pandora

Do lado esquerdo do peito e deixar

A ventania e a tempestade de mim mesma ser a bonança...

Foi quando percebi

Que a pequena luz vermelha

Como num alerta rojo

Ainda gritava com sede

Ou fome

Ou paixão

Que a recarregasse

O computador desligou

Não podia adiar

Tinha que falar

Tudo que estava engasgado

Peguei o telefone

Fora de área

Sem sinal

E uma duas três vezes

Só pude ouvir

Não adia

E dizer

Não foge

E a resposta

Não vou fugir

Ou seria

Fingir

Seguiu a chuva

E comigo um vazio

Uma dúvida

E novamente a espera

E uma confusão

Eu não podia mais adiar

Nem fugir

E nem fingir

Saí assim mesmo

Em meio ao vendeval

Embaixo da chuva

E que delícia

Naquele momento pensar que quem está na chuva é para se molhar.

Confusão ...

E tudo vindo assim junto como gotas de chuva

“eu eu sei que você sabe quase sem querer que eu quero o mesmo que você”

No meio da tempestade

Legião urbana

Embalava

Meu desespero, minha ansiedade,

Mas desta vez algo era diferente...



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CONTINUA


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Este post está intimamente ligado aos dois

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Aquele abraço!!!