segunda-feira, 2 de julho de 2012

Promessas, Santos e assemelhados



Fazer promessas não faz meu feitio. E nunca fui muito adepta daqueles que prometem demais e fazem de menos. Nunca fui amante de quem apenas teoriza e não age na prática. Mas embora tenha certa ojeriza as promessas devo confessar que fiz algumas ao longo da vida e sempre que entro numa igreja pela primeira vez rezo e faço um pedido. E devo revelar que muitas vezes tem dado certo. Mas o tamanho da igreja nada tem haver com a eficácia e rapidez na realização das minhas ansiedades.  Sempre penso que se bem não fizer mal não há de fazer. Já prometi coisas absurdas, não vou negar...e o que me irrita é que se tenho atendido o pedido...me vejo no compromisso , e compromisso até certo ponto é uma coisa que me assusta um pouco, embora sonhe com certos compromissos. Odeio o vôo com hora marcada, viajar com a passagem de volta em dia, hora e local marcados. Este compromisso me horroriza, e não sei se pelo fato de ter desenvolvido uma certa aversão a tal, as coisas com dia e hora marcadas não acontecem. Em especial as passagens de volta. E se marcar a volta, pronto...a paranóia toma conta de mim. Tira meu sossego, me enraivece, entristece, empalidece. E eu não consigo percorrer o caminho com despreendimento sempre que sei que tenho que estar em tal, hora e em tal local...Para que? Ora ...para voltar. Em tempos remotos já escrevi sobre isto, de minha aversão ao backspace, voltar...ah... E certamente este deve ser o motivo que me sinto extremamente melancólica ao término de toda e qualquer viagem...Mas voltando as promessas e aos santos... a primeira vez que fiz isto para valer foi quando um dos meus melhores amigos foi atropelado por uma lancha quando estava mergulhando... Sim um amigo especial, jamais será atropelado por um fusquinha ou por um carro, um amigo especial sempre faz algum esporte de ação, adora aventurar-se nas alturas ou nas profundezas, tem algum hobby ou profissão diferenciada e é muito mais que um amigo...e é óbvio, é atropelado por uma lancha...e seu acidente passa em rede nacional... E como num caso destes não apelar para todos os santos, rezar em todas as línguas possíveis, todas as orações conhecidas e mais as inventadas. Mais ainda ao saber que ele estava voltando do fundo do mar antes da hora porque tinha marcado encontrar-se comigo... Fiz várias tentativas de visitá-lo, mas as visitas eram para os parentes e, amiga não é parente. No dia da visita em que informei que era a prima vinda do sul, enviada de sua mãe...cheguei cedo demais. a mulher do hospital mandou que eu voltasse mais tarde...E eu saí para pegar um ar, dar uma volta e me deparei com uma igreja... uma igreja de São Jorge guerreiro...Lembrei da máxima que a primeira vez que se entra em uma igreja se tem o direito a fazer um pedido, e pronto pedi a São Jorge  quase em lágrimas para que ele não levasse meu  amigo guerreiro! E fiz a promessa... envolvendo ele também, porque amigo que é amigo, faz promessa e inclui o amigo, afinal amizade é isto, compartilhar, alegrias, dores e promessas. Corri para o hospital para não perder a hora, e assim que entrei na CTI, um enfermeira me deu uma tesoura para cortar as unhas dele que estavam num estado deplorável... cara arrebentada, braços... cheio de cortes e curativos...E o pior, deprimido como nunca. Chorando me revelou que tudo que mais queria naquele momento era sair da CTI... Eu havia comprado um anjo para ele e lhe entreguei. Então faça o seu pedido. Terminei de cortar suas unhas, a médica entrou conversou com ele. E no mesmo instante ele foi transferido.  Passei a crer mais ainda nos anjos e em São Jorge e revelo que volta e meia pago alguma promessa extra por conta da recuperação de meu amigo. E acredito em anjos, sereias, elementais, gnomos, Papai Noel mais que em pessoas de carne e osso. Poderia dizer que foi fé, sorte, sei lá. Mas o fato que ele está bem forte até hoje. Comecei a ter cuidado com as promessas, fossem elas para santos, ou para meros mortais. Minha mãe sempre disse que "Ao rico não devas e ao pobre não prometas." Evito contar planos, prometer coisas, mas tento sempre envolver minha fé de um otimismo exagerado... Mesmo diante das mais turbulentas tempestades.  Depois do feito pela vida de meu amigo, achei que todos os santos, igrejas e orixás fariam o mesmo efeito.




Fiz um pedido para Iemanjá no ímpeto das festanças de fevereiro... Aconteceu ao contrário... E como boa brasileira, sou adepta do sincretismo religioso e  caí na burrice de jogar todas asminhas fichas, ou melhor apostar meus pedidos mais íntimos a ela.  Nossa tudo ao contrário de novo. E sendo assim, como hacker, descobri sua senha. Pedidos para ela devem ser feitos ao contrário. Quer um amor? Diga que quer ficar solteira! Quer bastante trabalho? Diga a ela que quer marasmo. Entendi que com ela funciona diferente... ela leva as coisas que pedimos com as ondas do mar em que é  rainha soberana. Mas ainda assim devo dizer que deixei ela de lado... Embora hajam estudos de que a mitológica Vênus, deusa da beleza  e ela correspondam a mesma criatura. E quem fica de mal com ela tende a ficar com um aspecto feio...acho que comigo ainda não fez efeito, tanto quanto não fizeram os pedidos.




Tenho sorte e proteção também com o santo a que meu avô é devoto...e bem, meu vô já está com 92 anos e esbanjando saúde, logo... São Franscisco de Assis tem lhe dado alguma paz para que ele seja também instrumento e portador desta. E como neta queridinha dele ( que minhas primas e manas não se zanguem com o fato) devo dizer que herdei certa credibilidade do santo em questão, não com milagres como o do Santo guerreiro, mas com luz a fazer clara minhas ideias em momentos desesperadores. Acho que ele gosta de mim, e eu percebo seus sinais que são serenos e sutis...e acho que caí na sua graça, não apenas por ser a neta querida de meu avô, mas pelo carinho aos animais. E de um tempo para cá não existe uma casa em que viva que os animais não se aproximem... Pássaros, lagartos, galinhas, bois, mariposas, jabutis... E onde eu ande sempre aparece um cachorro para bater um papo comigo. E devo dizer que a cumplicidade e simpatia com tal santo me traz paz. Quando estive em Roma, nada foi mais gratificante que me deparar com a imagem dele cheia de pequenas velinhas acessas numa pequena e simples capela próxima ao coliseu. Nem o vaticano em toda a sua grandeza, nem obras de arte suntuosas me trouxeram a paz que sua simplicidade por si só inspira.

 Agora devo dizer também que santo é como gente, por detrás de suas imagens existe um universo a ser desvendado...e bem...


...o  universo de Santo Antônio eu ainda não desvendei. Nossa relação é estranha. Quando me deparo com ele é como se encontrasse aquele credor cara de pau. O amigo sacana de cara deslavada. Das simpatias de noite de Santo Antônio,  a letra da casca da laranja, ou a dos papelzinhos embaixo do travisseiro nunca as iniciais reveladas se fizeram presentes no início dos nomes da lista vip dos abençoados seres que foram meus amores... Ele nunca acertou!!!  Ele, segundo meu ponto de vista, assemelha-se um pouco aos políticos...promete e não cumpre, faz só a metade ou envia a mercadoria com defeito...coloca na nota algo de primeira qualidade e envia a mercadoria de quinta, semelhante a 'made in Taiwan", "Made in China". A olho nu e a distância até engana... mas de perto ... ai! Santo Antônio...acho que de repente ele não era santo para este fim, mas deve ter ocorrido alguma coincidência com alguém e ele sem querer ganhou a fama. Pois para achar objetos perdidos ele nunca me deixa na mão, desde que o objeto, não seja um homem. Ele deve ser brasileiro como Deus...só pode! Ele não finaliza, é preciso muita contemporaneidade para entender sua santíssima obra aberta. Ele é um trapalhão... até coloca caras interesssantes no meu caminho...não vou negar...mas se a embalagem for muito boa, é preciso desconfiar... mais ainda quando a propaganda é grande a respeito a respeito de suas qualidades. Ou ele acha que  por minha amizade com São Francisco de Assis, deve me enviar espécies homo sapiens a serem, domados,  adestrados, leões ferozes, pavões misteriosos, galos... e também os hienas, aqueles que adoram pegar as sobras dos amigos leões e urubus,  os que se você não se cuidar te enquadram apenas como um pedaço de carne, ou o que é pior como carniça.
Os enviados de Antônio  ou tem a vida metódica e erudita demais para permitirem uma certa ginga popular em seus dias...(até permitessem sonhar, mas temem...). São aqueles tipos que enviam a declaração praticamente anexada a carta de demissão, a carta de intenção com a de desistência. Nascimento e óbito! Fazendo de possíveis frutíferas relações: nati morto. Ou me faz encontrar com aquele cara interessante que,  lamentavelmente, depois de conversar tantas coisas interessantes, sorrir lindo para mim precisa partir no dia seguinte. E o gran finale...? Esquece, ficamos apenas com o prólogo! Ou faz o gentleman me recordar que, depois do 'é possível', sou eu que tenho uma idiota passagem de volta em mãos com hora e local marcado. Ou ainda pior, transforma o príncipe num chato, lembrando-me a todo instante que eu tenho que partir, que eu tenho que comprar minha passagem, que eu devia voltar antes da hora, que eu já não devia mais estar, que o certo mesmo era eu nem ter vindo, que será um alívio eu ir embora... Por isto que quando encontro Santo Antônio pelo caminho digo como na oração: " 'Tu Antônio onde vais?' Nós temos que conversar...Você não entendeu os objetivos e a justificativa do projeto que lhe apresentei, tá de brincadeira, ou desistiu de ser santo para ser funcionário público?"



 Quanto a São João ...gosto de suas comemorações, mas o que le faz além de fazer xixi na laranjeira para deixar as laranjas docinhas, e converter pagãos em cristãos? Pula quadrilha? Come bolo de fubá... ? É tão contraditório pois sua festa é das mais pagãs que tem. E sempre me põe na dúvida, o motivo pela qual salomé quis sua cabeça! São Pedro eu nem sei o que falar e outros tantos até já esqueci... Gosto dos anjos e dos arcanjos, eles tem paciência comigo e o Arcanjo Miguel já me tirou de algumas encrencas, até mesmo enviar um conhecido no meio do nada e lugar nenhum de uma estrada deserta onde o carro estragou e eu tinha compromisso com hora marcada e não podia me atrasar. Me tirou de cada cilada que se eu tivesse um filho era bem capaz de botar o nome dele em sua homenagem, mas em agradecimento batizei alguns personagens com seu nome em gratidão a sua proteção e devoção a minha pessoa.


Minha irmã mais velha disse que nada disto está no poder dos santos e sim de meus pensamentos... me viu como Santa milagrosa, poderosa... E um cara, outro dia, em que uma criança chorava convulsivamente e, eu com duas palavras a fiz parar beijou minhas mãos como se eu fosse santa. Uma amiga disse que eu serei a Nossa Senhora do Teatro, dos andarilhos, loucos e artistas...
Não acho que tenha vocação para Santa, embora desconhecidos adorem revelar seus segredos para mim,  se um dia chegar meu dia de ser santa, embora odeie fazer promessas, "Prometo ser justa! E cumprir minhas promessas. Começando por esta!" E ainda que Santo Antônio siga aprontando das suas comigo, honrar o mandamento dos mandamentos: "Amar ao próximo como a si mesmo." Inclusive os santos de fama duvidosa.





Alguém me disse, que não se deve falar com santo quando pode-se conversar direto com o todo poderoso. E volta e meia eu intimo Ele, que, como bem sabemos, é brasileiro e tem certa tendência a funcionário público... mas com tantos pedidos e projetos idiotas é preciso compreendê-lo...Totalmente desrespeitado e com um bando de Santos corruptos em seu governo e com uma lei obsoleta como a de um dos seus mandamentos: "Não usar o nome DELE em vão."  mais desrespeitada que a lei seca nas vésperas de eleição. Tá certo, que Ele até certo ponto faz por merecer, seus filhos são um pouco reflexos dele, embora não se possa julgar o pai pelo filho... e vice versa...Eu intimo Ele as vezes e ele dá a resposta rápido, age bem sob pressão, pelo menos a minha...ou talvez seja por que na verdade estamos sempre esquecendo que  "a quem pedir lhe será dado"... ( e meu avô sempre me lembra isto ). Mas devemos lembrar que ele como bom brasileiro, deixa tudo para a última hora, adora uma gambiarra (tem certa tedência egocêntrica de cineasta), certamente toda sexta toma a sua cervejinha,  prefere a praia que os templos, adora correr riscos, certamente é adepto de esportes de aventura e pratica-os no sábado...e num aspecto é como eu, não planeja muito, senão jamais teria criado o mundo em sete dias... E tenho certeza que odeia marcar com antecedência a passagem de volta. 


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filme Perfeito



Tenho pensado no filme perfeito e mais ainda na personagem perfeita. Embora não acredite desde muito na perfeição, como já escrevi outras vezes, acho que ela não é estática, se move o tempo todo e sempre teremos que andar em sua direção, mas nunca a alcançaremos. Mas no domingo passado achei que seria capaz de encontrá-lo. Preparei uma bacia de pipocas e um café e me pus diante do computador numa busca por filmes on line para assistir.... indecisamente e insatisfeitamente nenhum filme era o que eu buscava...nada parecia preencher minhas expectativas. É bem verdade que tenho ido pouco ao cinema, desde que saí de minha terra natal isto há mais ou menos 15 anos. Eu ia muito ao cinema, pois não pagava, era amiga de um amigo que era amigo de um dos responsáveis do cinema. Então assistia a todos os filmes, de graça. Mas depois que tive que pagar por meus ingressos para ir ao cinema eu devo confessar que fui bem pouco. Não porque não goste, não porque não me interesse, mas tornou-se um pouco inviável economicamente ir ao cinema, já que de lá para cá o cinema também tornou -se bem mais caro ( e eu fui mal acostumada, nunca soube o que era pagar para ir ao cinema) e meus ingressos de teatro seguem no mesmo valor. Eu não escolhia o filme que iria assistir, assistia simplesmente a todos, sem exceção. E nunca, nunca mesmo, tive vídeo cassete em casa. Passei das telas de cinema direto para os filmes on line. Então também não fui habituada a ser daquelas pessoas que lêem a sinopse do filme e a crítica e vão atrás de assisti-lo. Falha minha, eu sei, uma atriz  deveria ir ao cinema, deveria saber o nome dos principais diretores, comparar seus filmes para entender o progresso de suas trajetórias cinematografias. Reconhecer trilhas sonoras e palestrar sobre este ou aquele cineasta e suas características mais marcantes. Mas existem tantos atores, que nunca leram a obra completa de Shakespeare ou de Nelson Rodrigues. Que não sabem a diferença de Laban para Meyerhold e que entendem erroneamente o método da memória das emoções de Stanislavsky.  Quem é leigo no assunto vai pensar que estou falando algum dialeto intergaláctico ao citar tais nomes. Pois bem, eu li a obra inteira do Shakespeare, e do Nelson Rodrigues, e quase toda do Brecht. E dos livros do Machado de Assis só me falta ler um de contos, que deixei para fazê-lo quando for mais velha para ter  o prazer de me reencontrar com um dos meus escritores prediletos em minha maturidade.

E sendo este o quadro, como buscar um filme para ver? Um premiado? Um clássico? O que ver? Algo que me faça transbordar. Que não seja apenas mais um enlatado de sabor artificial. Tantos filmes ali, na tela de meu computador acenando. Dos brasileiros aos europeus, dos indianos aos americanos. Com legenda ou dublado.  Filmes novos e antigos. Comédia romântica ou terror. Tudo ao alcance das mãos. Tão próximo quanto às pipocas que aos punhados colocava na boca enquanto fazia minha busca interminável.
Olho para bacia ( tão grande que daria perfeitamente para dar banho num bebê) restam apenas umas poucas pipocas... e não demora muito para que fique vazia... limpo o fundo dela com as pontas dos dedos.
 Desisto de procurar o filme perfeito! Ele( o filme perfeito) se quiser, que venha até mim! Afinal , não vou negar , sou uma pessoa atípica, mas uma personagem bastante interessante. De consolo restam agora os lábios ressecados do sal... Olho para o relógio- o real e o biológico- vejo que o domingo está acabando, e eu nunca mais viverei um domingo com a idade que tenho hoje!

Olho para tela, para o relógio, para a bacia, para o passado. Saudade de quando ia ao cinema nos sábados correndo pela rua com meus irmãos e fazíamos uma via crucis pelos diversos cinemas da cidade para escolher qual filme veríamos. Não era difícil escolher um filme nesta época, e embora minha opinião não contasse muito, pesava,  pois eu era a caçula, e às vezes tinha sim minha vontade acatada pelos meus cinco irmãos. Mas na verdade sempre entravamos num consenso pois se houvesse reclamação minha mãe simplesmente suspendia a ida ao cinema e pronto, ficávamos em casa fazendo faxina. Logo ninguém atrevia -se a desafiar a vontade da caçula, como também eu quando percebia que a opção que não era a minha, abria mão de minha vontade para garantir a ida ao cinema na próxima semana.  Tínhamos um pacto.  E sendo assim eu assisti muitos filmes de adolescentes,  quando era ainda bem criança, e alguns de meus irmãos já na adolescência eram obrigados a assistir filmes infantis. Só que eu não lia as sinopses, embora sempre tenha sido boa de leitura, eu só olhava o cartaz e a sonoridade do título. Mas era a imagem do cartaz que me fazia querer ver um filme ou outro. Depois de assistir o filme é que  comíamos pipoca, pois o dinheiro não dava para uma pipoca para cada um então dividíamos um punhadinho um pequeno pacotinho em seis com a promessa de que ao chegar em casa faríamos paneladas de pipoca. Voltávamos pela rua apitando campainhas e correndo! Eu era a menor de todos e corria um pouco mais devagar que eles,  então já tínhamos o plano de só começar a apitar as campainhas quando eu já estivesse no meio da quadra para dar tempo de correr e dobrar a esquina e não ser surpreendido por alguma dona de casa braba. Passei outro dia pela frente destes cinemas que eu ia, já não existem mais. Um deles depois de ser danceteria, churrascaria, igreja está em ruínas. O outro é loja de eletrodomésticos. Um virou estacionamento e aquele que eu sempre assistia cinema de graça...é uma igreja. A danceteria de minha adolescência é algo obsoleto, uma ruína degradante.  E o teatro em que mais trabalhei na vida, está lá fechado mofando e de portas desbotadas.  As vésperas de mais um aniversário só posso crer que isto é um sinal dos tempos, aviso de que o tempo passa e não pára! As coisas se consumem, como as pipocas que acabo de ingerir.
Desisto de procurar o filme perfeito, e penso que ele( o filme perfeito) se quiser que venha até mim, afinal sou uma pessoa atípica, uma  personagem sem igual, sensacional. E não farei como as seis personagens de Pirandello na busca de um autor. O filme perfeito se quiser que venha até mim. E virá, eu sei! Tenho certeza!
Lambo os lábios, estão ressecados do sal, o domingo chega ao fim, mas não posso reclamar...mesmo sem o filme perfeito  não foi um daqueles domingos " sem sal " ...

segunda-feira, 30 de abril de 2012

INFELIZMENTE




Falo hoje das coisas infelizes
Talvez...
Seja
Uma infelicidade minha

Falo do possivelmente
Coisas bobas e belas
Discretamente
Escondidas atrás da palavra
Infelizmente...

Falo mesmo
Desta  palavrinha ingrata,
 triste e dolorida
habitante antiga 
da velha cidade 
de nome justificativa.

 Ao mover-se os lábios para dizê-la,
O lápis para desenhá-la no papel,
 Ou os dedos em busca  dos caracteres 
que se lançam na tela
para escrevê-la
 Há sempre mais que uma história.

Por detrás de infelizmente
Mora todo um mundo de felicidade 
de vida,
 Habitam as mais humanas expectativas
Dos sonhos apaixonadamente imaginados
Dos adoráveis  desfechos esperados
E  não alcançados ...

Infelizmente é um quadro que pintamos
 que se apresenta com cores diferentes daquelas que sonhamos ...

Traços que não queríamos riscar,
Ou riscos no que singelamente criamos.

Espetáculo que não condiz com o ensaio
Cenas que  vivemos e que queríamos  viver ...
Mas vividas...parecem distorcidas!
Aniquiladas
Enviesadas!


Infelizmente...

Páginas com palavras diferentes
das que queríamos que fossem escritas ... 
Vozes que falam 
o que não esperávamos ouvir

Por detrás de infelizmente há um paraíso em potencial
desmontado por um vendaval...
ou por um verbo banal!

Infelizmente reside numa tempestade em copo d’agua...
e em singelas gotas
 que distraídas fazem 
(sem querer)
 uma inundação.

Infelizmente é o despertar de um sono para o pesadelo de nome vida...
é luz  a pino na realidade,
atenção maximizada nas coisas em seu estado cru
é foco no erro
esquecer a poesia
e ver  só a olho nu.


É enxergar o mundo e as coisas do jeito que estão
ou piores do que são
 sem permitir que a mágica luneta dos sonhos nossos
mude a visão ...

Infelizmente é aborto mudo
de grito preso na garganta
de orgasmo inalcançado
de tesão abafado

É comida insosa
Açúcar sem doçura ...

Traz todos os prazeres engessados
E deixa todas as loucas paixões cristalizadas...

Infelizmente é curva inesperada
e a  ausência de prontidão para vencê-la.


Ação congelada
gesto esquecido

Ao proferir infelizmente
 profere-se junto  o pavor
a covardia de saber que podia ser
 mas não foi.

 É paralisia nas boas esperanças construídas...
é destruição...
devastação...

 É a falta de sinceridade e de disponibilidade  para crer nos mais puros sentimentos...
Infelizmente esconde, maquia...mascara...
tudo que ainda quer ser ...
Mas não se diz...
Mas não se faz!


Não se desdiz!
Não se refaz!

Infelizmente anda sempre de mãos dadas com “não deu” 
”Me desculpe”
e
 “sinto muito”

 e como sente-se verdadeiramente quando sente-se muito
 e se quer 
e se queria
 que tudo fosse diferente
 e tivesse percorrido um outro caminho...

Infelizmente...também quer dizer
que na verdade
 queria que
ao natural
na real
 as coisas fossem diferentes...

Infelizmente é
ex futuro rebento  
de um quase caso de amor
 entre
o medo desvairado  do  orgulhoso
  com
a fantasia magnífica da  idealista

Infelizmente 
é a falta de comprometimento na essência...
é
o desejo na aparência...

infelizmente...é lamento  no coração...
'é desistência! ...

Infelizmente...




quinta-feira, 22 de março de 2012

O único erro


Ultimamente tenho pensado na vida mais do que o habitual, num exercício de lógica e correção, como uma atriz que ensaia a mesma cena repetindo a exaustão para levá-la a perfeição. Embora eu não acredite nela, na perfeição...não que eu não viva a buscá-la...mas não creio nela como um pódio ou o alto de uma torre, montanha ou escada que se possa alcançar!
A perfeição não é o fim de uma linha, segundo meu ponto de vista, é uma caminhada, onde dia após dia vão agregando-se valores, idéias, coisinhas...pequenos e sutis detalhes...
Não sou perfeita e nunca serei! E sinceramente acho que ninguém o é...e quem julga os outros pela perfeição de suas idéias, engana-se, erra! Também acho que jamais pode haver apenas um único erro, e que o erro nunca é isolado, nunca tem endereço próprio num único indivíduo...e é sempre efeito de tantas causas! Não olho para os erros como dores...mas procuro sempre pensar que o caminho da plenitude, da dita "perfeição",obrigatoriamente passa por ele!

Eu erro e tenho errado, desde sempre e seguirei errando para acertar!

Assim como me perco para poder me reencontrar!

Agora quem me diz que não erra, que acha que a culpa do erro está só nos outros e jamais em si...este sim sucumbiu ao erro ...mas ainda assim o isento de culpá-lo para compreendê-lo.
Com a compreensão os erros dissipam-se, corrigem-se, ordenam-se...e pouco a pouco caminha-se para a evolução! Mas nenhuma destas vias, seja a dos erros, a da perfeição ou a da compreensão existem numa via de mão única...todas são vias de mão dupla!
Faça sua aposta, jogue a moeda para o alto, arrisque-se a errar...
sempre haverá 50% de chances de cair cara ou coroa...
Toda moeda tem seus dois lados, e todo erro jamais é único!

Único é o amor e cada ser humano que o vive!

E quando o erro ou o amor se instauram e as coisas são mágicas,
ou ao contrário: nada são do que criamos com nossas humanas expectativas, devemos sempre pensar que é no andar da carruagem que as melancias se acomodam! E falo de acomodar aqui no sentido de acerto e não no de deixar o marasmo cotidiano instaurar-se.
Se os erros surgem e não buscamos acertá-los, estamos errando em cima do errado!
É como amputar a perna por causa da unha encravada do mindinho.
Se tratarmos os nossos erros e os dos outros assim, nunca vamos acertar, o caminho será apenas o da frustração constante...por que ela virá seja mais cedo ou mais tarde! E infinitas vezes! Se formos rígidos em impor nos outros apenas que sejam aquilo que esperamos deles estamos caindo não num 'único erro', mas mergulhando numa tempestade feita num copo d'agua...
Uma andorinha só não faz verão... e um erro só não pode conduzir a decepção!
Jamais pode ser condenável...Não é na fuga da convivência que vamos nos livrar do 'único erro', não é cortando a mão que vamos evitar que tenham ladrões no mundo, ao contrário, é vivendo, arriscando, errando, e acertando que as coisas que imaginamos vão tomando as formas que queremos...Um pintor jamais tem o resultado final de sua tela na primeira pincelada.
E se ele abandona a tela no primeiro traço, achando que errou...que estava demais...ele jamais terá a obra de arte!
Ironicamente na língua portuguesa usamos o termo "não faça arte"para designar aqueles que arriscam-se em fazer algo que para a sociedade normal não é aceita...
E assim histórias belas terminam antes de existirem, como um leitor que fica apenas com a capa, e a leitura das orelhas do livro, ou quem julga o filme pelo trailer, o espetáculo pelo prólogo, a janta pela entrada.
É por abandonar as coisas no primeiro e único erro, sem insistir o mínimo em suas possibilidades, que o mundo sucumbe a desistência, que talentos incríveis lotam repartições públicas, que artistas viram advogados, e bons advogados militares, e potenciais militares açougueiros...e por aí vai!
Eu não acredito nesta desculpa de que as coisas não seguiram no seu caminho por que um "único erro" surgiu e desviou da trajetórias os fantásticos e maravilhosos personagens por que as coisas não eram como imaginávamos!
Os erros são para serem corrigidos! Para assim virarem acertos, realizações!
As coisas que não são como imaginávamos devemos recriá-las para assim transformarem-se em mais do que podíamos supor delas!
Não acreditem jamais que possa existir um único erro que possa por fim ao amor, a uma carreira, a beleza de todo um caminho que descortina-se! Insistam no acerto! Uma criança erra muitas vezes, e cai outras tantas aprendendo a andar, a dar os passos certos que fazem sua vida caminhar ir adiante!
Aceitem o erro! É ele que conduz-nos a estrada infinita rumo a impalpável perfeição!

E se as coisas em algum momento não forem como você imaginar, permita-se aceitá-las e recriá-las, sintonize-as ao seu modo, na sua estação!
Se for inevitável desprenda-se delas como faço eu agora com estas palavras que estavam presas em minha garganta! E siga adiante!
Ainda que seja atroz, isto também é viver! Faça-o com doçura, sutileza e sobretudo sinceridade...para não sofrer e não causar sofrimento! E se amar verdadeiramente...não caia na burrice de desistir no primeiro erro...uma estrada jamais tem uma única curva... Siga adiante e verá as emoções que o caminho pode lhe proporcionar! Sem medo de errar liberte-se dos seus preconceitos, que acabam por limitá-lo, fazendo com que só se aceite aquilo cabe na sua ideia de sonho, na imagem perfeita!!! Cancele os erros como quem deleta um arquivo... e permita-se reescrevê-lo. Como quem deleta uma fotografia! Permita recapturá-la! A vida, as coisas, as pessoas são muito mais do que a imagem que você criou delas! Tenha sempre polidez para lidar com o outro, pois no universo do erro do outro também podem existir sonhos que sua vã sabedoria jamais ousou sonhar...Exercite o perdão, antes da frustração! O amor antes da discórdia! A compreensão antes da desistência!
No céu cabem infinitas estrelas, no viver infinitos erros!
E para acertar, as vezes é preciso deixar o erro passar! Mas se nada disto servir resta o consolo de que a vida não é um torneio de tiro ao alvo e ao final tudo passa... E assim o erro, a dor e a vida também vão passar! E seguiremos a errar para acertar!

Aquele abraço!!!


sexta-feira, 2 de março de 2012

Hóspede & Hospedeiro - REGRA NÚMERO 1


Antes de qualquer coisa...
não esqueça, em casos de hospedagem em casa de terceiros, sejam
parentes, amigos ou desconhecidos...
leve com você a
REGRA NÚMERO I -

Você foi convidado para ficar 1 mês na casa de um ser humano
que no afã de seu entusiasmo,
e possível encantamento,
vacilou,
querendo inconscientemente parecer extremamente educado e gentil ,
e ainda que este humano ser tenha lhe dito:

"Aqui te espero sempre de braços abertos, e podes ficar o tempo que desejares..."

NÃO ACREDITE...
Isto não é a verdade nua e crua...
isto é só uma verdade poética,
um humano vacilo,
a ilusão de ter perto o que vive distante...

é a teoria...
na prática sempre as coisas são diferentes,
sejam nas lições de matemática e física,
na interpretação de um papel
ou ao viver a vida...

A teoria nunca condiz com a prática...

never
mai
jamás

Lembrando que o fato aqui não reside na confiança que devemos ter nos outros,
acreditar nas pessoas não é de todo mal...
ao contrário
é lindo
num mundo decadente de valores
e consumido por atos materiais
acreditar no ser humano
é mais do que uma prova de amor...

pero...

but

ma

maaaaaaaaaaaaas

a pessoa ao dizer isto não pensou jamais que você seria louco o suficiente para hospedar-se na casa dela por
1 mês
por mais de 1 semana,
por sequer 5 dias,
ou 2
a pessoa ao dizer isto
não pensava nem ao menos que você iria de fato até a casa dela
e se ela mora longe demais de você
o caso é mais grave ainda...
ela não acreditava na pureza de sua loucura
na sua alma de viajante
e menos ainda acreditava
que ainda pudessem existir pessoas no mundo que arriscam ir para casa dos outros após um convite casual...

A pessoa sequer pensou como seria ter você dividindo sua rotina a dela por mais de 24 horas...
por isto...
sempre
a regra número 1 para quem vai hospedar-se em casa alheia é a de que
você é uma lombriga...

Sim,
VOCÊ É APENAS UMA LOMBRIGA...
UM VERME...
você é o hóspede...

você vai dar um gosto enorme a esta pessoa
de adocicar-se com todas as doces guloseimas de momentos convividos ao seu lado

são os doces momentos
que certo existirão
enquanto
você

amiga lombriga

estiver ali,
na casa do hospedeiro simpático
querido
amigo
gentil
solidário...

se todos fossemos gentis hospedeiros o mundo seria outro, não sei se melhor, mas seria outro...

Mas passado este momento ...
o doce momento
em que o hospedeiro sacia-se
com tantos doces e carboidratos da doçura momentânea de sua convivência
de sua cultura exótica ou metódica
de viajante
de hóspede quase acidental
o hospedeiro de você,
cara lombriga...

por uma razão vital
vai querer expelir você de alguma forma...

isto não é de todo mal

pense que você já foi um hóspede no ventre de sua mãe
e para você virar gente
ser o que é
crescer
evoluir
ganhar pernas pelo mundo
até o dia de hospedar-se em habitats alheios

ela teve de expelir-lhe para o mundo

e isto passará também com o seu hospedeiro
ele vai querer lhe expelir
seja com alho ou com vermífugo...

Num mecanismo de defesa
você
mais dia menos dia
irá tornar-se
um corpo estranho
que flutua pelo seu cômodo e egoísta habitat...

Não existe nada mais egoísta neste mundo que o habitat de um animal
seja ele uma ameba
um macaco
um cão
ou você
homo sapiens
que agora me lê!

o território
a propriedade
é o que nos divide

somos donos de manias sem fim
e cada casa tem sua mania
cada bairro
cada cidade
cada estado
cada província
cada país
cada ser humano

e a isto chamamos gentilmente de
cultura

e a sua cultura,
mesmo que você tenha nascido e se criado no mesmo bairro do seu hospedeiro
ela é sempre diferente
você tem um código cultural único por suas vivências
assim como tem um código genético único!

e quando você é a lombriga da questão
você não pode achar que é o Rei dos Animais
uma lombriga é sempre hóspede
e sendo assim não pode querer ser uma rainha
a altura do soberano hospedeiro
que nomearei aqui como faminto Rei Leão
que te tem sob o seu teto

(mais faminto ainda depois da verminose)

Não esqueça que você sendo hóspede não pode jamais almejar ser o rei da floresta!!!

Quando somos hóspedes temos obrigatoriamente que dançar segundo a música
ainda que a música
seja:

"ai que eu te pego... te pego ... te pego..."

ou

o
famigerado

"crew, crew, crew, crew, crew, crew..."


E ao dançar ...ainda que o ritmo seja caliente
enlouquecedor
é preciso fazê-lo sempre com cautela...
e doçura...
a doçura das lombrigas...
o jogo de cintura das lombrigas...

afinal você é uma lombriga e não uma solitária tenia solium!
você faz parte deste todo! E ainda que sutilmente deve revindicar o direito de expressar a sua doçura...


O melhor é ser prudente e retirar-se antes que seja necessário,
antes que o hospedeiro precise usar um vermífugo...

retire-se naquele momento em que ele,
o hospedeiro,
sente que seria ótimo
você passar a vida toda ali ao seu lado
com todas as suas manias
com todos os seus defeitos lombrigóides

sejam elas a do banho diário
ou da quantidade exagerada de açúcar no café

retire-se a francesa
ou numa humana despedida
de sorriso desajeitado
abraço desencontrado
pela falta de convivência
de melancias que já acomodaram-se na carruagem

ou

retire-se em grande estilo
com direito
a beijos molhados
sem fim
na estação

Mas
RETIRE-SE
RETIRAR-SE
é crucial !!!


E faça sempre o possível,
mesmo que sejas uma estrela,
para que seu hospedeiro
não perceba
que você
podia ser um verme...
...
assim
ainda que você deixe a descarga correndo
(por descuido ou falta de prática
a hábitos diferentes dos seus)
ainda que você
deixe a calcinha no banheiro
não como um ato de demarcar território
mas por uma questão de sua higiene de educação nos trópicos...
e fique diariamente de pernas para o ar
para exercitar seu corpo
ou meditar...

o hospedeiro
não vai nem sentir...
que a estrela era um verme...

e que vermes e estrelas
são tudo uma só coisa
mas apenas vistos de um ponto diferente...

Ao final se sua estadia
não for nada boa
pense
que hoje você é hóspede
mas amanhã poderá ser hospedeiro...

e assim como existe um dia da caça
e outro do caçador

sempre haverá
um dia em que nos hospedarão
e dias em que hospedaremos

existe o dia do hóspede e o dia do hospedeiro

e é assim que vamos vivendo
evoluindo,
viajando,
hospedando,
e sendo hospedados...

mas a menos que queira ser visto como verme
e não como estrela
não esqueça
que as regras do jogo
podem sim mudar
depois que a bola já rola no gramado..

e para isto nada melhor
que viver
pois é vivendo
que se aprende a jogar

...
deixemos as faltas
e os cartões vermelhos para outra postagem...


e hoje pensemos que somos estrelas...
pois de vermes
e de autoritários hospedeiros leões
o mundo está cheio
e nós viajantes
não estamos isentos de topar com eles
e até mesmo de vez ou outra
sermos um deles...

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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pseudo estrela de muitos amantes imaginários


Falarei hoje da distância!
Não apenas da distância física,
mas em especial da distância que há no que somos e no que aparentamos ser...
Eu tenho pago mais caro na banquinha da praia, na pipoca, no milho verde, na pamonha... e eu até poderia dizer aqui que é por que sou uma pamonha... uma grande tonta...
Mas fazer o que? Se ao chegar no quisoque da praia, a moça olha para minha cara, vê o meu sorriso brilhante, olha para minha barriga que já vem acoplada ao photoshop de revista masculina e pensa que eu sou rica...Resultado: a distância entre o que sou de fato ( mas que odeio afirmar ou assumir: uma artista descapitalizada) não é notada pela vendedora do quiosque do milho verde da praia...

E assim aquela cara de rica, bem sucedida, feliz, turista internacional...faz saltar aos olhos dos vendedores...e se eu estou no meu dia de pamonha, deixo passar e pago, só para não ter que discutir... Afinal o tal olhar distorcido, o pré- conceito da moça da banca do milho verde que em sua esperteza me enxerga extremamente bem sucedida, não deixa de ser um elogio a minha pessoa, não deixa de ser um pensamento positivo para comigo!


Às vezes, a distância,
para alguns
pode até parece que eu sou uma diva,
quase hollywoodiana
daquelas que passa e que um tapete vermelho abre-se:

luz, câmeras, ação

a diva chegou...
e diante dela...
diante da pseudo star...
todo pedido é uma ordem ...

"Ei você! É você mesmo! Hoje é você que quero como amante! "

Um estalar de dedos e pronto tenho todos ali aos pés:

homens lindos,
altos,
baixos,
loiros,
morenos
de todas as idades...
de todas as nacionalidades
querendo beijar meus pés,
mãos
me desejando
em corpo
alma
e pecado ...

E por onde passo tenho um amante
e todos eles interessantíssimos,
e recebo até flores no camarim
e na porta de minha casa
(que sequer tem um endereço que caiba no google, ou no gps.)
Meu telefone não para de tocar
e não são credores, não!
Minha caixa de mensagens está prestes a explodir...
e não foi a operadora de telefonia que enviou!

Mas ao deixar a raiz do cabelo aparecer,
as cicatrizes nítidas se mostrarem,
as verdades nuas e cruas...
pronto!
Sai o tapete da frente,
e com ele a legião de fãs imaginários concebidos por algum fã longíquo,
que através das lentes de seu estonteante par de olhos me poetisa...me concebendo uma verdadeira Star! Talvez louca, mas star... estrela alucinada e brilhante!

A verdade nua e crua é que lá estou eu diante de mim mesma, só em meu mundinho e sem espectadores...

Cabelos em desalinho,
pele das costas espinhenta,
pela necessidade fisiológica de prazeres humanos,
irritabilidade em grau elevado e...
ao invés do pijama de diva de filme ou de garota propaganda de lingerie,
camiseta velha,
óculos... e olheiras infinitas,
perdida numa noite de insônia...
De amante mesmo, só o café, já frio, para suportar a
longa jornada noite a dentro em frente ao computador
a espera de notícias
de nem sei quem
de nem sei o quê!

Aos meus pés
para lembrar que eu não estou só,
parte da minha matilha
da minha verdadeira legião,
a liga dos cães!

Ao aproximar a câmera,
a realidade,
não sou Beth a feia,
mas com os óculos na face,
lábios secos,
desidratados pelo tempo que estou neste romance desenfreado com meu PC,
há até uma certa dor na lombar
que me faz franzir a testa, e deixa rugas de expressão entre as sobrancelhas...
e assim a diva some...
na verdade
a diva nem existe...
ele nunca existiu, ela também é sonho, aparência, imaginação!

Ela é o ego, meu e dos outros maximizado!
A diva, a estrela...
a super star (para ser mais glamourosa)
...

como eu queria ser ela!

Visceral, louca, linda...sexy... avassaladora!

O silêncio do entardecer é cortado pelo eco das minhas dúvidas
de minhas humanas inseguranças
que nada tem de estelar ou divino...

Na solidão,
as muitas vozes que me falam
os muitos amantes que pensam que tenho
a riqueza material que pensam que possuo

tudo é pseudo...

e minha beleza efêmera... fotogenia exarcebada

sou de uma realidade inacessível
aos mais humanos pensamentos

sou a pseudo felicidade personificada
estampada no cartão postal de nome face

de uma pseudo intelectualidade
de uma pseudo sensualidade
de um pseudo educação européia em terras tupiniquins

pseudo sexy
pseudo bela
pseudo latino americana

pseudo aqui só não é a sonhadora
demais tudo em mim é pseudo

e lá no fundo
no entorno
fora os livros que empilhados espalham-se pela casa
por cima dos móveis

fora meus animais de estimação

tudo é imaginário
virtual
ou quase

amantes imaginários
como o eram também os amigos de uma infância distante

coragem imaginária

intelectualidade imaginária

nada existe

há uma imensa distância na bela que aparento, vez ou outra ser,
para aquela que de fato sou

Não sou a elegante da foto
embora seja mais alta e magra que a grande maioria
de minha e de outras idades

não sou feia como na foto da carteira de identidade
nem séria como na foto do passaporte
ou linda como na foto de meu perfil do facebook

Dos amores que tenho em sonho e imaginação
fica o sonho de juras de amor sem fim
cenas cinematográficas
onde tenho
a correr atrás de mim,
como paparazzi,
os melhores takes
captados
por
steadicam,
skycam...

O que corre inexorável atrás de mim agora,
não são os paparazzi
nem o belo videomaker...

O que corre na velocidade da luz
em minha direção
é o medo de não ser o que aparento ser
de não ser o que acho que sou
e busco ser

O medo de ser apenas o sabor que há nesta distância traiçoeira
que há entre
a gostosa de pernas saradas
e olhos claros
para
a
doce artista, romântica
e sonhadora...


O que move-se
são também os ponteiros de um relógio que já não enxergo
(até porque, relógio de ponteiros é já coisa obsoleta)
o que corre
além do tempo
e do tal relógio biológico
e ideológico
são meus dedos magros
no pequeno teclado do netbook...

A maratona é de meus olhos
que de um lado ao outro da pequena tela
insistem em corrigir palavras
como se a vida
os atos
o amor verdadeiro
almejado
sonhado
com todos os cabíveis desejos
pensados e impensados
também pudessem ser corrigidos...
E corre também
à milhões,
nas veias
o sangue indignado
poético
insistente
e forte.

E assim...
fico aqui
perdida
entre meus sonhos bregas
de filha 'quase' caçula
de família 'quase' do subúrbio
'quase'do centro
'quase'pequeno burguesa
'quase'diferente
'quase'tradicional


&

o desejo
cosmopolita
de que um dia serei
uma artista além do que tenho sido
uma louca de verdade
e me mostrarei como uma estrela de brilho próprio
sem ansiedades ou vacilos.

A vontade de compreeder e ser compreendida!

Muito além desta cara de turista rica
vista pelos vendedores de praia.

Muito mais que a diva
da embalagem do sabonete.

Talvez quase igual
a dama que habita
o pensamento masculino que me desvenda
poeticamente
pela lente de seu olhar ...

Sim, um dia, esta distância
que existe
entre a aparência e a realidade
vai diminuir.
De repente até se dizimar...

E neste dia não precisarei mais
ser enquadrada
numa ou noutra
imagem...
numa ou noutra categoria!


No corpo nu de minha constelação
serei eu
em essência!

Apenas eu,

apaixonada como sempre!!!

Às vezes sonhadora como as princesas das histórias infantis,
e até chatinha como elas,
outras como as fortes mulheres da obra de Brecht,
e até um tanto amarga como elas.

Mas sempre delirante...transbordante...
insaciável na busca de uma efêmera fugaz felicidade!

Por agora
me contento com a realidade
ou pseudo realidade
e visto o título de pseudo estrela
me permito sonhar que tenho todos os amantes do mundo
amantes imaginários
fascinantes...
únicos...
e sobretudo
extremamente sinceros
humanos até em seus desejos,
ausências,
transtornos
e obcessões...

Deuses gregos ou romanos da comtemporaneidade.

Poéticos sempre...
e eu não mais poetisa inspirada
mas no centro de seu pensamento
seu desejo mais forte
sua louca inspiração...
Projeção 3D personificada
de seus mais sonhados e secretos pensamentos...

Sem qualquer distância
física ou emocional
o ser e o parecer uma só coisa
em fusão
sem exitação
sem confusão!

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mudanças

Há cerca de um ano ... entrei num mergulho em devaneios e loucuras sem fim que me fizeraam transformar este blog quase num livro virtual com capítulos que de uma mesma história, ou devaneio, como preferir... agora, passado tempo ...a história segue, mas deixei de publicá-las aqui...se publicar ou esquecer prometo avisar aqui... Era só para constar ... a distância tem seu lado bom decanta certas coisas tornando certas substâncias mais claras...ou chacoalha tudo...Tornando todas as partes uma só coisa...agora volto a escrever aqui no estilo inicial...no estilo de crônica ou ensaio, sei lá... E como o tempo passou e tem passado e seguirá passando ...